terça-feira, janeiro 23, 2007

dona guiomar

Dia horrível. Nem em casa me desligo. Não bastasse toda aquela punheta no trabalho, me roubaram. Roubaram a droga do celular. Mas fui estúpido. Ninguém anda de celular na orelha naquele pedaço da cidade. Porcaria de bairro suburbano.

E o pior de tudo foi o modo. Não há nem a sombra do filho da mãe que me empurrou e bateu o celular. Não sei nem quem eu xingo. Não sei se é preto ou branco. Se alto, gordo ou um tísico viciado em pó. Não posso nem descontar a raiva, que é de mim mesmo pela bobeada, esconjurando um desgraçado infeliz desses.

Já vi muitos batedores de carteira pelo centro da cidade. Nunca atuam sozinhos. E eu dei uma moleza daquela. Devem ter feito o mesmo comigo. Deviam ser 5 ou 6 marmanjos, grisalhos e gordos, que me rodearam, e com a sincronia de um time de futebol americano me bateram o celular e correram pro touchdown, ou melhor, caminharam.

Quando me equilibrei do empurrão, via ao meu lado uma mulher, com seus mais de 50 anos. Peguei a filha da puta pelo ombros e olhei no fundo dos olhos dela. A bolsa estava aberta, dependurada no ombro. Que tipo de idiota anda com a bolsa aberta por esses bairros? Deve ser o mesmo tipo que anda com o celular na orelha. Ou a safada da mula que dá sumiço nos objetos furtados.

Com ela nas mãos, fui logo mandando devolver o telefone. E quando olhei bem nos olhos da cadela fiquei sem fala. Aqueles olhos me perguntando o que foi senhor? O rosto era familiar demais, mesmo sem nunca ter visto antes aquela umazinha.

Era o mesmo olhar de Dona Guiomar.

Dona Guiomar trabalhou quase uma vida na casa de meus pais. Foi um doce de pessoa conosco. Depois que minha mãe morreu – atropelada – cuidou de meu pai como a esposa mais jovem de um marido velho. Nunca acreditei em meus pensamentos, que sugerem que foram para a cama algumas vezes.

Quando meu pai faleceu, Dona Guiomar foi maravilhosa comigo. À beira de seus cinqüenta anos, mais de vinte naquela casa, conhecia cada canto melhor do que ninguém. Me auxiliou em tudo. Eu organizei o gabinete dele. O resto, a casa inteira, foi ela. Caixas, etiquetas. Embrulhos nas coisas delicadas. Tudo. O gabinete, ela lacrou e etiquetou as caixas. Eu apenas reproduzi a organização que o velho tinha. Obscessivo. Os objetos de trabalho, os objetos pessoais, os papéis, os arquivos antigos. Mas isso tudo ela já conhecia de cor.

Algumas coisas que foram de minha mãe, depois de anos guardadas pois meu pai teimava em preservar, dei para a coitada da Dona Guiomar. Quase uma vida lá dentro e um salário de merda. Meu pai nunca deixou ninguém se meter nas economias dele. Mesmo se a economia dele significasse a semi-escravidão da empregada. Tá certo que ali ela comia e ali, algumas vezes da semana também dormia. Dois uniformes pretos, dois aventais brancos, um sapatinho surrado e isso era tudo o que eu sabia que ela tinha. E os dois filhos “quase grandes”, como ela sempre frisava ao falar deles.

Dona Guiomar raramente aceitava alguma coisa que minha mãe mandava para eles. E depois do acidente, passei a fazer esse papel. Desviava da despensa aquilo que considerava excedente ou o que parecia ajudar na alimentação dos três. Dona Guiomar sempre relutou em aceitar. Se comportava como uma abnegada doadora de si mesma.

Depois do velho morto e enterrado nunca mais encontrei Dona Guiomar. Eu costumava ligar no natal. Faz quatro ou cinco anos que não ligo mais. Não tive nenhuma notícia. Não deve ter morrido, é provável que esteja em outra casa de família.

Tudo isso em um instantâneo. Enquanto eu olhei aquela mulher apertada pelas minhas mãos nervosas, a velha Guiomar ocupou minhas lembranças. Foi nessa hora que a infeliz falou:

─ Não fui eu, não senhor! O moleque correu pra lá! Pra trás!

Pronto! Eu tinha o autor e a direção. Era metade do que eu precisava, a outra metade era o rosto do delinqüente. Corri na direção apontada, olhei por todos os lados, pensando que ele estaria ali, encostado em uma parede, de celular novo na mão, rindo da minha corrida, da mulher que eu sacudi nas mãos.

O calçadão estava repleto de gente. Eram executivos, mulheres, camelôs, moleques, toda ordem de gente. Foi nesse momento que me dei conta. Jamais acharia o culpado ali. Todos eram culpados potenciais. Qualquer um poderia ter me roubado. Qualquer um, menos aquela mulher com olhos de Dona Guiomar.

A pior coisa que pode existir é um crime sem suspeito. Um culpado a gente acha. Bastam três ou quatro suspeitos e alguns tapas bem dados.

Depois de um dia desses, me sinto ainda mais impotente. Procurando na memória um anônimo batedor de telefone celular. Sem rosto, sem corpo, sem cor, sem sexo. Só pra me encher o saco vou ter que comprar outro celular amanhã. Posso fazer um bom negócio com parte daquele jogo de pesos em ouro, que foram tão estimados pelo velho. (Sovina). Nunca usou aquilo, nem teve uma balança; mas guardou a sete chaves e viveu dizendo que ouro não desvaloriza.

Enfim vão servir de algo, estão aqui na caixa do gabinete, na dos objetos pessoais. Ficaram ai com o tempo. Nunca tive razão para abri-la.


Dona Guiomar, filha da puta!

sábado, dezembro 30, 2006

acertos

Na praça Clóvis
Minha carteira foi batida
Tinha vinte e cinco cruzeiros
E o teu retrato
Vinte e cinco
Eu, francamente, achei barato
(Praça Clóvis, Paulo Vanzolini)


Ele sempre me pareceu um parceiro confiável.

Não sei o que passou, de alguns meses para cá parece-me que está em férias.

Não, não férias de mim; a mim dedica toda atenção do mundo, às vezes até de mais; os projetos da casa, o quintal que ele conta... tudo, absolutamente tudo, caprichoso e bonito.

Há alguns meses ele descreve a casa, chega a me falar da mobília, das plantas do quintal, possui um bom gosto admirável. Fica lindo de terno, pena não trabalhar assim todo dia.

Adoro os cabelos emaranhados, como se não se preocupasse com isso. Arrumar-lhe o colarinho antes de sair é delicioso.

(Já me visita apenas de camiseta.)

Mas faz tempo que não o vejo poupar, ou mesmo investir algum dinheiro, sabe? Não digo muito, mas alguma coisa que seja. Poupança sempre foi um bom negócio. Ele discorda.

Qualquer quantia já me tranqüilizaria. De onde ele pensa que virá a nossa casa? Além disso, não é bom jogador, sabe que a loteria não é uma alternativa...

É o segundo emprego que manda às favas.

Mas já está em outro.

(A casa seria linda.)

Um sujeito direito; desses poucos que dizem ainda existir. Falta alguma coisa que não sei. Acho que confio nele.

Fala-me como se fosse um poeta. Passional. Passional é nosso sexo, nunca provei homem tão preciso. O toque, o cheiro, o beijo. Absolutamente preciso. Nunca errou um milímetro do meu corpo. Quando nos conhecemos, ele me olhava como se mapeasse cada curvinha, cada centímetro. Ainda me dá tesão pensar.

Eu estava mais bonita naqueles dias. Ainda sou bastante atraente.

(Por precaução retomei a academia.)

Ele dorme sorrindo, com aquele sorriso que as crianças têm quando conseguem o que querem. Mas sempre acorda de mau humor, parece que a manhã lhe tira todos os sonhos da noite.

À noite. É à noite que o vejo mais à vontade. O dia lhe aborrece, lhe cansa. A noite pelo contrário, lhe rejuvenesce. Por vezes até demais.

(Tenho andado bastante cansada.)

É inteligente, adora cinema e literatura. Não entendo porque abandonou os estudos com a quantidade de convites que teve. Dizia que se encheu, que se desiludiu.

(Sempre preferi caminhos mais estáveis, mas ele não me considera conservadora. É o que me diz.)

Quando fica tenso, sempre leva a mão à boca. Mesmo quando lhe fiz as unhas, que ficaram uma graça, ele estragou. Sempre que vejo puxo-lhe as mãos e beijo com carinho. Ele me sorri. Tem um sorriso lindo.

(Mas nunca deixou de levar a mão à boca. Teimoso)

Eu investi muito nesse relacionamento. Não posso continuar com isso.

(Ele está subindo, o porteiro avisou. Não posso continuar com isso)

Daqui a pouco vai entrar, ele não costuma bater, sabe que o porteiro avisa e goste que eu deixe a porta destrancada. Diz que assim pode entrar e me abraçar num movimento só.

(Ele diz muitas coisas)

Outro dia quase deixei cair a luminária, não sei por que, mas me assustei.

(Eu sempre o esperava perto do quarto, agora tenho me ocupado depois de atender o interfone.)

Acho que estou tensa. Não posso continuar com isso.

Ele continua me dando aquele sorriso lindo.

(Mas titubeou para me abraçar.)

Sempre pegou as coisas no ar. Quando liguei esta tarde, tive vontade de chorar e ele percebeu. Foi mais fácil controlar. Não posso continuar com isso.

É um homem raro. Parece levar a vida tão numa boa, mesmo quando deita em meu colo e chora. Aliás, ele não chora faz tempo. Ao menos não no meu colo.

Mais uma vez, sempre contando coisas que fez – como se narrasse a Odisséia. O que foi hoje? Só atravessou a rua para comprar cigarros e depois veio até aqui. Aposto que ficou em casa ouvindo música e não fez nada.

Ele diz muitas coisas.

(Num domingo como hoje, eu aqui. Fazendo contas, revendo a vida.)

Não posso continuar com isso.

(É difícil conversar e pensar em tudo isso. Vou ter de falar logo. Não posso continuar com isso.)

Adoro quando me acaricia o rosto.

— Olha, são mil setecentos reais.

— Mas o que?

— É. Eu te falei. As coisas não andam fáceis, você sabe muito bem disso.

— Sei. Você vem falando isso nos últimos tempos. Mas o que são mil e setecentos reais?

— É quanto eu preciso até o fim do ano. Você pode ver isso pra mim? As coisas não estão fáceis e preciso recuperar essa quantia.

— Mas é muito dinheiro!

...

— Você está se sentindo lesado? É isso? Acha que estou cobrando algo indevido? Você pode me pagar aos poucos. Até aos meses se preferir, conforme der. Mas eu preciso até o fim do ano.

— Entendo...

— Olha, se descontar algumas coisas, talvez fique mais fácil.

— Descontar o que?

— Você teve seus gastos, fez seus investimentos também. Eu sei disso.

— É verdade, tive.

— Pois é.... podemos deixar tudo em mil e duzentos reais, o que acha?

— De onde saiu esse valor?

— Oras, foram meus investimentos e os teus... Todo esse tempo... Você sabe bem.

— Olha, eu entendo. Você precisa de dinheiro, né?

— É. A coisa não está fácil... Além do que, foi muito investimento, não acha?

— Acho que é... com desconto ainda é...

— Pois é, mas não dá pra reduzir. Pode ser até o fim do ano?

— Tudo bem. Eu pago.

— Está bem. Me dê um beijo...

...

— Vou indo.

— Leva o número da conta... pode ser mais fácil depositar...

— Ah, tudo bem...

— Você está triste?

— Não. Estou confuso...

— Sobre o valor?

— É...

(Ele sempre pára na porta, meio dentro, meio fora... e assim me roubava um beijo e descia a escada correndo e sorrindo, como moleque.)

Não gosto quando ele abaixa a cabeça, procurando as idéias... Me sinto culpada.

(Estou apenas sendo justa, sei disso. E não posso continuar com isso.)

— Tchau, quando depositar me avise de alguma forma, ok?

— Tchau.

(Não me roubou o beijo, mas desceu correndo e sorrindo.)

— Espera.

— Diga...

— Talvez te ajude saber, que eu também somei o ingresso daquele filme francês que você sugeriu...

— Imaginei.

...



(Mil e duzentos? Deposito amanhã.)