dona guiomar
Dia horrível. Nem em casa me desligo. Não bastasse toda aquela punheta no trabalho, me roubaram. Roubaram a droga do celular. Mas fui estúpido. Ninguém anda de celular na orelha naquele pedaço da cidade. Porcaria de bairro suburbano.
E o pior de tudo foi o modo. Não há nem a sombra do filho da mãe que me empurrou e bateu o celular. Não sei nem quem eu xingo. Não sei se é preto ou branco. Se alto, gordo ou um tísico viciado
Já vi muitos batedores de carteira pelo centro da cidade. Nunca atuam sozinhos. E eu dei uma moleza daquela. Devem ter feito o mesmo comigo. Deviam ser 5 ou 6 marmanjos, grisalhos e gordos, que me rodearam, e com a sincronia de um time de futebol americano me bateram o celular e correram pro touchdown, ou melhor, caminharam.
Quando me equilibrei do empurrão, via ao meu lado uma mulher, com seus mais de 50 anos. Peguei a filha da puta pelo ombros e olhei no fundo dos olhos dela. A bolsa estava aberta, dependurada no ombro. Que tipo de idiota anda com a bolsa aberta por esses bairros? Deve ser o mesmo tipo que anda com o celular na orelha. Ou a safada da mula que dá sumiço nos objetos furtados.
Com ela nas mãos, fui logo mandando devolver o telefone. E quando olhei bem nos olhos da cadela fiquei sem fala. Aqueles olhos me perguntando o que foi senhor? O rosto era familiar demais, mesmo sem nunca ter visto antes aquela umazinha.
Era o mesmo olhar de Dona Guiomar.
Dona Guiomar trabalhou quase uma vida na casa de meus pais. Foi um doce de pessoa conosco. Depois que minha mãe morreu – atropelada – cuidou de meu pai como a esposa mais jovem de um marido velho. Nunca acreditei em meus pensamentos, que sugerem que foram para a cama algumas vezes.
Quando meu pai faleceu, Dona Guiomar foi maravilhosa comigo. À beira de seus cinqüenta anos, mais de vinte naquela casa, conhecia cada canto melhor do que ninguém. Me auxiliou
Algumas coisas que foram de minha mãe, depois de anos guardadas pois meu pai teimava em preservar, dei para a coitada da Dona Guiomar. Quase uma vida lá dentro e um salário de merda. Meu pai nunca deixou ninguém se meter nas economias dele. Mesmo se a economia dele significasse a semi-escravidão da empregada. Tá certo que ali ela comia e ali, algumas vezes da semana também dormia. Dois uniformes pretos, dois aventais brancos, um sapatinho surrado e isso era tudo o que eu sabia que ela tinha. E os dois filhos “quase grandes”, como ela sempre frisava ao falar deles.
Dona Guiomar raramente aceitava alguma coisa que minha mãe mandava para eles. E depois do acidente, passei a fazer esse papel. Desviava da despensa aquilo que considerava excedente ou o que parecia ajudar na alimentação dos três. Dona Guiomar sempre relutou
Depois do velho morto e enterrado nunca mais encontrei Dona Guiomar. Eu costumava ligar no natal. Faz quatro ou cinco anos que não ligo mais. Não tive nenhuma notícia. Não deve ter morrido, é provável que esteja em outra casa de família.
Tudo isso em um instantâneo. Enquanto eu olhei aquela mulher apertada pelas minhas mãos nervosas, a velha Guiomar ocupou minhas lembranças. Foi nessa hora que a infeliz falou:
─ Não fui eu, não senhor! O moleque correu pra lá! Pra trás!
Pronto! Eu tinha o autor e a direção. Era metade do que eu precisava, a outra metade era o rosto do delinqüente. Corri na direção apontada, olhei por todos os lados, pensando que ele estaria ali, encostado em uma parede, de celular novo na mão, rindo da minha corrida, da mulher que eu sacudi nas mãos.
O calçadão estava repleto de gente. Eram executivos, mulheres, camelôs, moleques, toda ordem de gente. Foi nesse momento que me dei conta. Jamais acharia o culpado ali. Todos eram culpados potenciais. Qualquer um poderia ter me roubado. Qualquer um, menos aquela mulher com olhos de Dona Guiomar.
A pior coisa que pode existir é um crime sem suspeito. Um culpado a gente acha. Bastam três ou quatro suspeitos e alguns tapas bem dados.
Depois de um dia desses, me sinto ainda mais impotente. Procurando na memória um anônimo batedor de telefone celular. Sem rosto, sem corpo, sem cor, sem sexo. Só pra me encher o saco vou ter que comprar outro celular amanhã. Posso fazer um bom negócio com parte daquele jogo de pesos em ouro, que foram tão estimados pelo velho. (Sovina). Nunca usou aquilo, nem teve uma balança; mas guardou a sete chaves e viveu dizendo que ouro não desvaloriza.
Enfim vão servir de algo, estão aqui na caixa do gabinete, na dos objetos pessoais. Ficaram ai com o tempo. Nunca tive razão para abri-la.
Dona Guiomar, filha da puta!

6 Comments:
Caraca, quanta raiva! Tudo por causa de um celular???
Mas agora que eu sei dos dobrões espanhóis...
Seu pai tinha razão: ouro não se desvaloriza. As pessoas sim.
Temos de tomar uma urgente!
gostei da história... muito bem contada. Bom estilo. Foi legal o susto, com flashback e correria...
Você deveria escrever um livro. Já pensou nisso?? Se precisar de alguém pra divulgar é só me chamar.
Texto muitíssimo bem escrito.
Primeira coisa q leio sua além das msgs... simplesmente divino! Só espero q nao seja verdade!
Menino! Cadê a continuação deste blog?
Eu procuro, procuro e não acho...
:*
Inocente e ingênuo.
Foi com a filha da puta da `Dona Guiomar´ q seu celular ficou, bobinho...
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