acertos
Minha carteira foi batida
Tinha vinte e cinco cruzeiros
E o teu retrato
Vinte e cinco
Eu, francamente, achei barato
(Praça Clóvis, Paulo Vanzolini)
Ele sempre me pareceu um parceiro confiável.
Não sei o que passou, de alguns meses para cá parece-me que está em férias.
Não, não férias de mim; a mim dedica toda atenção do mundo, às vezes até de mais; os projetos da casa, o quintal que ele conta... tudo, absolutamente tudo, caprichoso e bonito.
Há alguns meses ele descreve a casa, chega a me falar da mobília, das plantas do quintal, possui um bom gosto admirável. Fica lindo de terno, pena não trabalhar assim todo dia.
Adoro os cabelos emaranhados, como se não se preocupasse com isso. Arrumar-lhe o colarinho antes de sair é delicioso.
(Já me visita apenas de camiseta.)
Mas faz tempo que não o vejo poupar, ou mesmo investir algum dinheiro, sabe? Não digo muito, mas alguma coisa que seja. Poupança sempre foi um bom negócio. Ele discorda.
Qualquer quantia já me tranqüilizaria. De onde ele pensa que virá a nossa casa? Além disso, não é bom jogador, sabe que a loteria não é uma alternativa...
É o segundo emprego que manda às favas.
Mas já está em outro.
(A casa seria linda.)
Um sujeito direito; desses poucos que dizem ainda existir. Falta alguma coisa que não sei. Acho que confio nele.
Fala-me como se fosse um poeta. Passional. Passional é nosso sexo, nunca provei homem tão preciso. O toque, o cheiro, o beijo. Absolutamente preciso. Nunca errou um milímetro do meu corpo. Quando nos conhecemos, ele me olhava como se mapeasse cada curvinha, cada centímetro. Ainda me dá tesão pensar.
Eu estava mais bonita naqueles dias. Ainda sou bastante atraente.
(Por precaução retomei a academia.)
Ele dorme sorrindo, com aquele sorriso que as crianças têm quando conseguem o que querem. Mas sempre acorda de mau humor, parece que a manhã lhe tira todos os sonhos da noite.
À noite. É à noite que o vejo mais à vontade. O dia lhe aborrece, lhe cansa. A noite pelo contrário, lhe rejuvenesce. Por vezes até demais.
(Tenho andado bastante cansada.)
É inteligente, adora cinema e literatura. Não entendo porque abandonou os estudos com a quantidade de convites que teve. Dizia que se encheu, que se desiludiu.
(Sempre preferi caminhos mais estáveis, mas ele não me considera conservadora. É o que me diz.)
Quando fica tenso, sempre leva a mão à boca. Mesmo quando lhe fiz as unhas, que ficaram uma graça, ele estragou. Sempre que vejo puxo-lhe as mãos e beijo com carinho. Ele me sorri. Tem um sorriso lindo.
(Mas nunca deixou de levar a mão à boca. Teimoso)
Eu investi muito nesse relacionamento. Não posso continuar com isso.
(Ele está subindo, o porteiro avisou. Não posso continuar com isso)
Daqui a pouco vai entrar, ele não costuma bater, sabe que o porteiro avisa e goste que eu deixe a porta destrancada. Diz que assim pode entrar e me abraçar num movimento só.
(Ele diz muitas coisas)
Outro dia quase deixei cair a luminária, não sei por que, mas me assustei.
(Eu sempre o esperava perto do quarto, agora tenho me ocupado depois de atender o interfone.)
Acho que estou tensa. Não posso continuar com isso.
Ele continua me dando aquele sorriso lindo.
(Mas titubeou para me abraçar.)
Sempre pegou as coisas no ar. Quando liguei esta tarde, tive vontade de chorar e ele percebeu. Foi mais fácil controlar. Não posso continuar com isso.
É um homem raro. Parece levar a vida tão numa boa, mesmo quando deita em meu colo e chora. Aliás, ele não chora faz tempo. Ao menos não no meu colo.
Mais uma vez, sempre contando coisas que fez – como se narrasse a Odisséia. O que foi hoje? Só atravessou a rua para comprar cigarros e depois veio até aqui. Aposto que ficou em casa ouvindo música e não fez nada.
Ele diz muitas coisas.
(Num domingo como hoje, eu aqui. Fazendo contas, revendo a vida.)
Não posso continuar com isso.
(É difícil conversar e pensar em tudo isso. Vou ter de falar logo. Não posso continuar com isso.)
Adoro quando me acaricia o rosto.
— Olha, são mil setecentos reais.
— Mas o que?
— É. Eu te falei. As coisas não andam fáceis, você sabe muito bem disso.
— Sei. Você vem falando isso nos últimos tempos. Mas o que são mil e setecentos reais?
— É quanto eu preciso até o fim do ano. Você pode ver isso pra mim? As coisas não estão fáceis e preciso recuperar essa quantia.
— Mas é muito dinheiro!
...
— Você está se sentindo lesado? É isso? Acha que estou cobrando algo indevido? Você pode me pagar aos poucos. Até aos meses se preferir, conforme der. Mas eu preciso até o fim do ano.
— Entendo...
— Olha, se descontar algumas coisas, talvez fique mais fácil.
— Descontar o que?
— Você teve seus gastos, fez seus investimentos também. Eu sei disso.
— É verdade, tive.
— Pois é.... podemos deixar tudo em mil e duzentos reais, o que acha?
— De onde saiu esse valor?
— Oras, foram meus investimentos e os teus... Todo esse tempo... Você sabe bem.
— Olha, eu entendo. Você precisa de dinheiro, né?
— É. A coisa não está fácil... Além do que, foi muito investimento, não acha?
— Acho que é... com desconto ainda é...
— Pois é, mas não dá pra reduzir. Pode ser até o fim do ano?
— Tudo bem. Eu pago.
— Está bem. Me dê um beijo...
...
— Vou indo.
— Leva o número da conta... pode ser mais fácil depositar...
— Ah, tudo bem...
— Você está triste?
— Não. Estou confuso...
— Sobre o valor?
— É...
(Ele sempre pára na porta, meio dentro, meio fora... e assim me roubava um beijo e descia a escada correndo e sorrindo, como moleque.)
Não gosto quando ele abaixa a cabeça, procurando as idéias... Me sinto culpada.
(Estou apenas sendo justa, sei disso. E não posso continuar com isso.)
— Tchau, quando depositar me avise de alguma forma, ok?
— Tchau.
(Não me roubou o beijo, mas desceu correndo e sorrindo.)
— Espera.
— Diga...
— Talvez te ajude saber, que eu também somei o ingresso daquele filme francês que você sugeriu...
— Imaginei.
...
(Mil e duzentos? Deposito amanhã.)

1 Comments:
Claro que gostei, não podia ser diferente, vindo de quem veio.
Gostei, duvidei, não entendi, entendi... espero pelos outros
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